Projeto Bonecar: uma experiência de sucesso com bonecos terapêuticos em tratamentos hospitalares

Introdução

A hospitalização de uma criança é considerada uma circunstância amedrontadora e geradora de ansiedade, pela qual se isola de seu contexto social e se depara com um ambiente desconhecido e disparador de uma série de fantasias, medos e inseguranças. Por muitas vezes essas crianças são acometidas por enfermidades graves e/ou crônicas, em que são submetidas a tratamentos intensivos ou a internações prolongadas (Romano, 2012).

O Projeto Bonecar foi criado com o objetivo de tornar a experiência hospitalar de crianças e seus familiares menos dolorosa, propiciando um excelente instrumento para o paciente, seus familiares e os profissionais da saúde.

O boneco ‘terapêutico” é produzido em tecido, artesanalmente, e possui características semelhantes de crianças em tratamento. Atualmente, o projeto conta com seis tipos diferentes de bonecos, que foram criados de acordo com pedidos de médicos e profissionais da área da saúde, quais sejam: câncer, coração, rim, câncer ocular, albinos e boneca da amamentação, sendo esta, a única não destinada à criança, mas sim à família.

No presente artigo serão abordados relatos de profissionais da saúde e de pais de crianças beneficiárias das bonecas do câncer, rim e coração.

O boneco do câncer possui como característica principal o fato de não possuir cabelos, mas é acompanhada de uma peruca e uma touca, para identificação com crianças acometidas pela alopecia. O boneco do coração possui a cicatriz da cirurgia cardíaca, com o coração de tecido em destaque. O boneco do rim possui um corte frontal e outro na parte posterior do corpo, e possui um rim em tecido para que seja trabalhada a questão da diálise peritoneal ou do transplante renal, de acordo com cada situação.

Acredita-se que a representatividade  e identificação do paciente com o boneco contribui para a elevação da autoestima, além disso,  o boneco terapêutico é um instrumento que, se bem utilizado,  permite a expressão dos medos e sentimentos da criança,  demonstração de procedimentos que serão realizados, que consiste em informação adequada ao paciente e sua família, e favorece a criação de uma relação de confiança entre criança e profissional, o que já foi demonstrado na literatura que são fatores essenciais para preparar crianças para procedimentos médicos.

Objetivo

O objetivo do presente trabalho é apresentar casos de sucesso em que os bonecos terapêuticos foram introduzidos em contextos diferentes de hospitalização e por diferentes profissionais da saúde, ora pela enfermagem em procedimento pré-cirúrgico, ora pela área de terapia ocupacional ou psicologia, para crianças internadas, trazendo grandes benefícios para os pacientes.

Os casos analisados de crianças que receberam os bonecos do câncer e do rim foram trabalhados por terapeutas ocupacionais. Já os casos dos bonecos do coração foram utilizados pela área de enfermagem e psicologia.

O sucesso é medido pelo nível de satisfação dos pacientes envolvidos e dos relatos dos profissionais.

Metodologia

Ressaltamos que o presente trabalho não possui o rigor científico e foi elaborado para a administração do projeto, com base na análise de relatórios, formulários de avaliação e depoimentos colhidos ao longo de dois anos de utilização do Projeto Bonecar em grandes centros de referência em São Paulo (2018-2020).

Trata-se de uma análise exploratória, descritivo-qualitativa, cujos dados foram coletados dos relatórios elaborados pelos profissionais de saúde que fizeram a entrega dos bonecos, bem como depoimento de pais de pacientes.

É importante mencionar que desde  2018, quando o Projeto Bonecar inicia um parceria com alguma instituição da área da saúde, é sempre realizada uma reunião, preferencialmente com equipe multidisciplinar, em que se explicam os objetivos do projeto e são entregues modelos de relatórios e avaliações que devem ser entregues aos seus coordenadores após o decorrer aproximadamente 6 meses.

Os relatórios encaminhados pela equipe hospitalar que conduz o trabalho com os bonecos terapêuticos do projeto bonecar propiciam análises como a realizada no presente artigo.

Revisão de Literatura

Antes de mencionarmos os resultados observados, é importante ressaltar que diversos estudos já foram feitos sobre a utilização do brinquedo terapêutico e sobre técnicas que acalmam crianças em procedimentos hospitalares.

Apenas para citar alguns, Wolfer e Visitainer (1975) demonstraram que crianças preparadas de forma planejada e sistemática para procedimentos pré-cirúrgicos tiveram menor pulsação e menor nível de estresse em seus procedimentos. Além disso: foram mais cooperativos; adaptaram-se melhor após a alta, tiveram melhor recuperação; seus pais relataram menor nível de ansiedade do que nas outras situações analisadas, em que não houve preparo ou este não foi sistematizado.

Por sua vez, Koller (2008) levantou 62 artigos sobre a brincadeira terapêutica dos quais fez uma seleção, excluindo os que se repetiam e outros que envolviam terapias que não estavam sob seu enfoque e selecionou 10 para se debruçar e analisar os resultados. A partir desse estudo define-se o brinquedo terapêutico como aquele que atende a uma dentre as três finalidades: a) encorajar expressão de emoções; b) instruir ou educar a criança sobre procedimentos médicos; c) melhorara alguma função fisiológica (ex.: fazer bolas de sabão para melhorar a respiração).

Kiche e Almeida (2009) compararam o comportamento de 34 crianças em curativos com e sem intervenção com boneco terapêutico. O uso do boneco terapêutico foi feito para se demonstrar os procedimentos que seriam executados previamente no boneco. Analisando-se os comportamentos que evidenciam maior adaptação e aceitação ao procedimento, verifica-se que todos se tornaram mais frequentes durante o curativo realizado após a sessão de brinquedo terapêutico.

De modo geral é farta a literatura sobre os benefícios do uso do brinquedo terapêutico, tendo o boneco um papel de destaque entre os diversos tipos de técnicas de brincadeiras terapêuticas.

Resultados

Em consonância com o observado na literatura, os bonecos terapêuticos do Projeto Bonecar são utilizados tanto para encorajar expressão de emoções como para passar instruções sobre procedimentos médicos.

Foram analisados 35 relatórios encaminhados pelas equipes de terapia ocupacional e psicologia de 3 instituições distintas, que utilizaram os bonecos terapêuticos no período de 2018 a 2020, tanto para demonstrar procedimentos como para estimular a expressão de emoções. Não foram recebidos relatórios dos enfermeiros que aplicaram os bonecos terapêuticos em procedimentos pré-operatórios cardíacos.

O conteúdo dos relatos e relatórios analisados indicam a identificação do paciente com o boneco terapêutico com características semelhantes às suas, bem como, uma maior aceitação da criança e seus familiares da condição de hospitalização e/ou tratamento.

Análise de relatos de entregas de bonecos terapêuticos

Perguntas Sim Total Amostra %
Houve identificação com o boneco? 27 35 77,14%
Houve maior aceitação da enfermidade? 14 35 40,00%
Total 41 35
Identificação + aceitação 6 35 17,14%

Como é possível observar na tabela acima, dos 35 relatórios analisados, a grande maioria, correspondente a 77% dos respondentes sinalizou que houve identificação da criança com o boneco oferecido. Por sua vez, 40% das terapeutas observaram que através do trabalho com o boneco terapêutico notou-se uma maior aceitação da enfermidade. Uma parcela menor, mas também significativa, correspondente a 17% da amostra, notou tanto a identificação com o boneco como maior aceitação da enfermidade.

Avançando um pouco mais na interpretação dos resultados, foi analisado o conteúdo de cada relatório recebido com o objetivo de verificar em quais contextos os bonecos terapêuticos foram oferecidos, ou seja, o que motivou o profissional a entregá-lo em cada caso.  Pôde-se observar a predominância de 5 motivos: 1) a característica física (no caso do câncer geralmente a entrega é associada ao sofrimento do paciente com a questão da alopecia); 2) para encorajar enfrentamento de procedimentos que causavam insegurança ou medo; 3) para ajudar o paciente a lidar com hospitalização prolongada ou difícil; 4) para favorecer o vínculo entre o profissional e o paciente; 5) para acalento ou aconchego.

Motivos alegados da intervenção

Motivos Quantidade Amostra Percentual
Característica física 13 35 37%
Enfrentamento de procedimentos 12 35 34%
Lidar com hospitalização 8 35 23%
Favorecer vínculo 2 35 6%
Acalento, aconchego 2 35 6%

É possível destacar, a partir da tabela acima que o fator que mais fez o terapeuta lançar mão do recurso do boneco terapêutico, em 37% dos casos, foi o sofrimento em decorrência de alguma característica física do paciente, em que o boneco representativo dessa dor favorece a expressão de sentimentos e emoções. No caso dos relatórios ora analisados, essa característica física foi predominantemente a alopecia, dado que a grande maioria dos relatórios recebidos (32) foram de tratamentos oncológicos. Em seguida, em 34% dos casos, os bonecos terapêuticos foram entregues para ajudar o paciente a enfrentar procedimentos que causavam insegurança ou medo, como a colocação do cateter, colocação de uma sonda e de outros dispositivos estranhos à realidade do mundo infantil. Em 23% dos casos, a situação que motivou a entrega dos bonecos foi a dificuldade da hospitalização, pacientes há muito tempo no hospital, com dificuldade de aceitação da sua condição. Por fim, em menor número foram entregues os bonecos para facilitar o vínculo com o profissional e para aconchego ou acalento.

No caso dos pacientes cardiopatas, os bonecos foram entregues como protocolo em um hospital, como procedimento pré-cirúrgico, no início da internação. Até o momento não foi recebido relatório por parte a área de enfermagem, que efetua a entrega dos bonecos, porém, foram recebidos relatos de pais de pacientes, que se sentiram mais confiantes e aliviados com a entrega dos bonecos. Ademais, um dos pais filmou o trabalho da enfermeira explicando o procedimento que seria realizado na criança por meio da boneca e nos enviou mensagens de gratidão e alívio por terem esse apoio num momento de tanta tensão.

Os relatos recebidos de pais, geralmente, demonstram que o boneco terapêutico proporcionou: alegria, afeto e leveza, com destaque ao uso dessas três palavras, o que sugere que nesse aspecto o boneco está reduzindo de certa forma o estresse da situação.

Discussão

A experiência tem demonstrado resultados muito positivos do uso da técnica do boneco terapêutico, tanto em tratamentos de saúde longos, quanto durante internações e procedimentos pré-cirúrgicos, o que indica que sua utilização deve ser continuada e ampliada para mais pacientes e hospitais. Sugere-se realização de mais estudos científicos sobre os benefícios e formas de uso do boneco terapêutico em diferentes contextos de hospitalização e por diferentes equipes de saúde (psicologia, terapia ocupacional, enfermagem), bem como realização de treinamento permanente, para que seja possível experiências cada vez menos traumáticas em procedimentos e hospitalizações na pediatria.

Bibliografia

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